90 anos da Revolução Social na Espanha: uma conversa com Miguel Angel

Em 19 de julho de 1936, ao amanhecer de um golpe militar, boa parte do povo espanhol foi às ruas quase sem armas. Não saía apenas para conter o golpe de Estado. Saía para construir, ali mesmo, no calor daquele dia, uma sociedade inteira sobre outras bases: sem patrões, sem propriedade privada dos meios de produção, com as fábricas e os campos geridos por quem os fazia funcionar. Nas semanas seguintes, milhões de pessoas viveram, na prática, aquilo que até então era projeto e sonho.

Noventa anos depois, exatamente na data desse levante, nos reunimos para relembrá-lo. Numa transmissão ao vivo, a professora de História Ellen Rocha, coordenadora do Arquivo Lucy Parsons, conversou com Miguel Angel, ativista e pesquisador libertário que integra a Fundação Anselmo Lorenzo há mais de trinta anos, para responder a uma pergunta que os livros escolares costumam engolir: afinal, o que foi a Revolução Espanhola, e por que ela ainda nos interessa?

O que segue é uma síntese em diálogo dessa conversa, realizada pelo canal do Instituto de Estudos Libertários em parceria com o Arquivo Lucy Parsons e o Plebeu Gabinete de Leitura. Também contamos com o apoio oficial da Fundação Anselmo Lorenzo.

Ellen — Para quem nunca ouviu falar da Revolução Espanhola, o que foi esse processo?

Miguel Angel — É um processo complexo, que acontece num país que, no contexto europeu, ainda era subdesenvolvido, mas que estava entrando na modernidade. Dentro do movimento operário e das classes populares, o anarquismo era uma corrente profundamente enraizada, com mais de cinquenta anos de propaganda e de conscientização. Por isso, quando o exército dá o golpe e invade a vida civil, parte do povo vai às ruas ao mesmo tempo para combater o fascismo e para construir aquele mundo novo a que aspirava havia décadas. Não foi algo inesperado: foi o resultado de muitos anos de preparação.

Ellen — Por que o dia 19 de julho é considerado tão marcante?

Miguel Angel — Porque mostra a capacidade criadora do povo. A classe trabalhadora e os camponeses decidem construir um novo modelo de sociedade. O anarquismo sempre foi voluntarista: confia na vontade, no desejo de construir algo, diferente do marxismo, que fala em condições objetivas. A Espanha demonstrou que, com consciência e desejo, é possível construir muita coisa. E o 19 de julho também marca um momento de reflexão, porque o anarquismo nunca ofereceu uma rota fechada para a revolução: apontava princípios gerais, apostando que, chegado o momento, o povo enfrentaria os desafios em busca dessa sociedade libertária.

Ellen — O que diferencia a Revolução Espanhola de outros processos do século XX, como a Revolução Russa?

Miguel Angel — Primeiro, é preciso dizer que ela não é um processo homogêneo: uma coletividade agrária não é o mesmo que uma indústria coletivizada. Mas a diferença central é que essa revolução não luta tanto por tomar o poder, e sim por destruí-lo, por construir uma vida social e econômica à margem das estruturas de poder. Na Rússia, os soviets podiam, no início, ser vistos como um sistema democrático-popular, mas rapidamente aquilo se perverteu numa ditadura de partido. Na Espanha isso não aconteceu: a aspiração era construir esse mundo novo no dia a dia, não só no aspecto econômico, mas também na convivência.

Ellen — Como funcionavam as coletividades e a autogestão nesse processo?

Miguel Angel — De formas diversas. No campo, havia coletividades formadas por camponeses que eram pequenos proprietários e decidiam juntar suas terras e trabalhar em comum; e havia áreas onde a terra pertencia a grandes latifundiários, e os trabalhadores tomavam o controle e a organizavam de maneira autogestionada. Nas cidades, as indústrias eram coletivizadas: deixavam de ser propriedade privada e passavam a ser propriedade coletiva, com o funcionamento decidido em assembleia. O que há de comum é a autogestão: os próprios trabalhadores, em plena igualdade, organizando e gerindo suas terras e fábricas.

Ellen — E qual foi o papel da CNT e das demais organizações operárias?

Miguel Angel — A CNT era a central sindical majoritária, de orientação anarcossindicalista, e a principal referência do processo coletivizador. Mas nem toda coletividade era guiada pela CNT, havia muita gente de outras procedências ideológicas. A CNT compreendeu que não cabia a ela conduzir o processo de forma diretiva, como se fosse um partido; deu bastante liberdade para que as iniciativas fossem autônomas. O que ela precisou decidir foi como se relacionar com o Estado. Em seu debate, optou por não declarar o comunismo libertário em toda a Espanha, consciente de que em muitas regiões não era majoritária, e por construir uma aliança com outras forças democráticas para preservar o processo. É um dos grandes debates até hoje: esses acordos foram acertos ou erros? A história mostra que o Estado foi, aos poucos, recuperando posições e encerrando o processo revolucionário.

Além da CNT, outras organizações tiveram papel decisivo: as Juventudes Libertárias e a FAI, na consolidação da autogestão e na criação das milícias; e as Mujeres Libres, voltadas à emancipação da mulher, propondo uma revolução também no plano pessoal, oferecendo formação e estudos e combatendo varias formas de opressão.

Ellen — Quais foram os principais desafios enfrentados?

Miguel Angel — Foram enormes. De um lado, um exército com apoio internacional reprimindo de forma atroz qualquer oposição. De outro, dentro do próprio campo governamental, formado por republicanos, socialistas e comunistas, havia quem não visse com bons olhos a revolução; para muitos deles, controlar e reverter o processo revolucionário era prioridade até maior do que derrotar o fascismo. Some-se a isso a guerra: grande parte da militância libertária estava no front, faltavam alimentos e materiais, e foram adotadas medidas que impediam o funcionamento assembleário normal. Em alguns momentos a CNT funcionou com uma “democracia reduzida”, o que gerou tensões enormes. Surge daí o chamado circunstancialismo, a ideia de que as circunstâncias da guerra obrigavam a tomar decisões contraditórias com os princípios defendidos por décadas. Alguns companheiros aceitaram essa postura; outros preferiram se afastar, dizendo que não podiam colaborar com políticas que contrariavam tudo o que haviam defendido.

Ellen — Há um verdadeiro apagamento da CNT e do anarquismo nos livros e nos debates históricos. Por que isso acontece?

Miguel Angel — Sofremos uma longa campanha de desprestígio, que pinta o anarquismo como pura violência, sem fundamento racional, como se fôssemos pessoas que só provocam desastres. A revolução prova o contrário: a ideologia libertária tem filosofia, corpo teórico e prático coerente, e conquistas concretas. Durante décadas, certa historiografia marxista chamou aquilo de “rebeldia primitiva”, irracional e fadada ao fracasso. Isso está mudando no meio acadêmico, com cada vez mais estudos sérios sobre a CNT e o movimento operário. No nível popular, porém, os preconceitos permanecem. Falar da Guerra Civil Espanhola sem falar da CNT, que era a maior organização, não é acaso: é parte de um esforço de invisibilizar tudo o que os trabalhadores construíram, justamente porque aquilo representava uma alternativa real.

Ellen — Passados 90 anos, que ensinamentos esse processo nos traz para as lutas de hoje?

Miguel Angel — A sociedade de 1936 e a de hoje são muito diferentes. A Espanha era então o último grande bastião libertário do mundo, num momento em que o anarquismo já vinha sendo absorvido pelo comunismo e pela social-democracia em outros países. Hoje precisamos encontrar novas formas de os movimentos ganharem força e apresentarem uma alternativa, sobretudo diante da crise climática, que empurra o planeta para a catástrofe. Não é tarefa simples. Mas o exemplo da Espanha mostra que, quando as pessoas acreditam numa ideia e desejam aplicá-la, muita coisa é possível. Sim, haverá dificuldades e contradições, mas o balanço daquele processo é positivo: demonstrou que essas propostas não são ideias loucas, e sim projetos viáveis, capazes de servir de base a uma sociedade de justiça e igualdade.

Perguntas do público

Como está o anarquismo na Espanha hoje?

Miguel Angel — Prefiro falar em movimento libertário, mais amplo que “anarquista”, afinal, quem se filia a um sindicato não precisa ser anarquista. Esse movimento está em crescimento claro, com muitas frentes possíveis além da sindical: ecologista, naturista, cultural. Sua influência geral ainda é limitada, mas o trabalho cotidiano vem dando frutos. Depois da frustração de parte do movimento popular de 2011 (o 15-M), há hoje mais gente se aproximando do campo libertário. A própria Fundação Anselmo Lorenzo, principal referência cultural e histórica do libertarismo na Espanha, cresce em pesquisadores, publicações e interesse, algo impensável há pouco tempo.

Como funcionavam as coletivizações no campo e nas cidades?

Miguel Angel — A principal característica é a abolição da propriedade privada. Em muitas coletividades agrícolas, o dinheiro foi literalmente queimado, como recusa à sociedade capitalista, e passou-se ao escambo ou a “moedas” internas. Em alguns lugares aboliu-se o salário; em outros, adotou-se o salário familiar, pago conforme a necessidade de cada um: quem tinha esposa e quatro filhos recebia mais do que quem era solteiro. Nas indústrias, era mais comum manter salários, mas iguais para todos. Diziam que isso seria o caos; provou-se o oposto: quando a pessoa sente que trabalha em algo que é seu, que pode propor e debater, as coisas funcionam. O que sufocou as coletividades foi a pressão do Estado republicano, que as impedia de exportar, limitava seus empréstimos e minava sua autonomia.

Como a militância da CNT atravessou a ditadura de Franco?

Miguel Angel — Preferimos dizer “relançamento”, porque a CNT nunca chegou a desaparecer. Ela sofreu uma repressão brutal: muitos militantes morreram no front ou pela repressão; boa parte se exilou, indo para França, México, norte da África, Reino Unido, República Dominicana, Estados Unidos, Brasil. Outra parte, numerosa, permaneceu na Espanha em trabalho clandestino e enfrentou o período mais duro do franquismo. Muito castigada, a organização ficou enfraquecida, enquanto o sindicato de inspiração comunista crescia nos anos finais da ditadura. Os exilados, por sua vez, quase nunca se integraram de fato aos países onde viviam: pensavam sempre no retorno à Espanha.

Quais eram as diferenças entre a CNT e a FAI?

Miguel Angel — A CNT é uma central sindical, baseada em sindicatos; para se filiar, basta ser trabalhador. A FAI é uma organização específica, anarquista, para anarquistas: para entrar, é preciso demonstrar que se é, de fato, anarquista. Um sindicato precisa conviver com a legalidade e cumprir exigências administrativas; a CNT era ilegalizada e reconstruída repetidas vezes. A FAI dependia menos desse contexto. Em geral, quase todos os membros da FAI eram filiados à CNT. Há muito debate sobre se a FAI teria funcionado como uma “vanguarda” orientando a CNT, e não há consenso.

O que era o “comunismo libertário” adotado em 1936?

Miguel Angel — É uma ideia de linhas muito gerais, que na prática pode assumir formas diversas: não pode ser igual numa pequena comunidade rural e numa cidade como São Paulo. A ideia central é uma sociedade igualitária, com justiça social, em que todos têm direitos para participar das decisões e o dever de contribuir com a comunidade. Nega-se a propriedade privada dos meios de produção (terra, indústria e serviços passam a ser coletivos), ainda que bens pessoais como roupa e casa possam ser privados. Não há classes sociais. A CNT aprovou, em seu congresso de maio de 1936, o “conceito confederal do comunismo libertário”; visto hoje, porém, é um documento impreciso, que não dá conta das grandes cidades e da sociedade moderna.

Palavras finais

Miguel Angel — Gostaria de encerrar destacando uma coisa: esse processo revolucionário está fundado na ação de pessoas concretas. Tive a sorte de conviver com alguns companheiros que foram protagonistas das coletividades, e me surpreendeu a bondade e a grandeza pessoal deles, sempre com alegria e esperança, apesar de muitos terem passado longos anos na prisão. Recomendo o documentário Vivir la Utopía, feito de entrevistas com gente comum que participou de tudo aquilo. Para mim, pensar a revolução é perguntar se somos capazes de nos parecer com essas pessoas, que nos deram o exemplo de que outra sociedade é possível, de que a capacidade do povo de criar e construir é imensa. O principal é nos convencermos de que é possível. E fazer.

Ellen — A Revolução Espanhola não inspira apenas pelo confronto bélico ou pela imagem de mulheres pegando em armas. Inspira, sobretudo, pela potência criativa, que aparece em inúmeros casos, não em um exemplo isolado. É a força de uma organização que era forte não pela palavra, mas pela prática. Por isso faz tanto sentido pesquisar, estudar, aprofundar e defender essa tradição sindicalista revolucionária.

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